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quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Fado...

Quem me conhece, sabe que sou um grande fã da Carris e, particularmente, do autocarro que faz a carreira 750. Esse autocarro é palco das maiores peripécias, é um mundo à parte, mesmo.

A última delas ocorreu há alguns dias atrás e teve um cariz... musical. Passo a contá-la.



Eram 10h00 da manhã e cantava-se o fado no autocarro.

"Que chega ao coração num tom magoado, tão frio como as neves do caminho"

O que poderia ser uma atracção num dos autocarros turísticos da cidade, ganhava contornos de aberração entre os trabalhadores mal pagos e os estudantes que, com diferentes graus de depressão, faziam o seu percurso diário em direcção à rotina.

Mas a artista não se cansava. Aluna de uma escola secundária, a faltar a uma qualquer aula de substituição, continuava a exibir todo o seu reportório de Amália Rodrigues numa voz que, não sendo desafinada, era pouco agradável aos ouvidos. As colegas, entusiasmadas, rodeavam-na, incentivavam-na e aplaudiam-na.

Um senhor reformado, de cabelos brancos cobertos por uma boina acastanhada, tentava ir acompanhando a música, de olhos fechados e esboçando um sorriso, sonhando a Alfama, as sardinhas e as mulheres de outros tempos.

Mas o autocarro chegou à paragem do Colombo e as moças saíram, empenhadas em passar os 90 minutos de intervalo num local capaz de preencher as suas adolescentes necessidades. O velho, esse, agradeceu à cantora de serviço e, num gesto triste de quem se abandona ao seu próprio fado, sentou-se de novo na cadeira.

E foi isto... A banda sonora deste momento? Só pode ser uma...

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Coincidências

Hoje, para não variar, não ouvi o despertador. Acordei uma hora mais tarde que o previsto e saí de casa bastante atrasado.

Quando cheguei à rua, constatei que estava a chover. Sem guarda chuva ou casaco, meti as mãos nos bolsos e pensei: "vai ser um dia daqueles".

Mesmo atrasado, fiz a sacrossanta paragem na papelaria, para ver os títulos dos desportivos. Benfica nas 3 capas, tudo normal, portanto. Saí conformado com a lesão do Liedson e a fazer uma nota mental para não me esquecer de registar o Euromilhões no dia seguinte.

Claro que, quando levantei a cabeça, vi o 50 partir. Sim, o 50, o autocarro com maior história (e estórias) e carreira da Carris, no fundo o autocarro, ia seguindo o seu caminho perante os pingos insistentes. Escusado será dizer que era o meu autocarro. Frustrado, ia insultando o inventor da roda, quando vejo passar... outro 50. Não resisti a soltar um "p*t* que p*r**".

Avancei para a paragem, mentalizado para, com sorte, 20 minutos de espera à chuva. Mas, milagre dos milagres, apareceu um terceiro autocarro. Este não dava para perder.

Entrei apressado e a gabar a minha sorte: não é todos os dias que se anda num 50 vazio! Sentei-me onde me apeteceu e aconteceu um daqueles fenómenos exclusivos deste autocarro: vi, uns quantos bancos à frente, virado na minha direcção, um rosto extremamente familiar. O meu cérebro demorou ainda uma fracção de segundo a informar-me sobre quem era aquela pessoa, mas a minha cara abriu-se imediatamente num sorriso daqueles.

Ali estava aquele amigo que há tanto tempo não via! Levantámo-nos os dois e cumprimentámo-nos efusivamente. A troca de palavras habituais neste tipo de reencontros, mas o coração bem cheio.

Há mais de dois anos que não contactávamos. Vivíamos em sítios diferentes, tínhamos idades diferentes, amigos diferentes, ocupações diferentes, mas o 50 voltou a reunir-nos.

Foram 20 minutos muito bem passados, mas poderiam ter sido muitos mais. Haveria conversa para muitas horas, muitas imperiais e muitas gragalhadas.

Não deixa de ser curiosa a forma como todo um conjunto de factores e acontecimentos possibilitou este momento tão especial. Acordei tarde, saí atrasado, perdi 2 autocarros e reencontrei um grande amigo.

Só no 50, mesmo.